MAR VERMELHO
Um banco de jardim. Jorge está sentado, fazendo palavras cruzadas, confortável
em seu fim de tarde. Quando Jonas entra em cena, ele o olha de esguelha, e
continua concentrado em seu passatempo.
Jo: boa tarde!
Ge: boa tarde, …
Jo: tarde linda!
Ge: É…
Jo: o céu está um azul quase verde!
Ge: É verdade!
Jo: adoro o céu azul quase verde, me faz lembrar do mar!
Ge: (ficando em silencio)
Jo: Se bem que quando ele está verde quase azul, eu também lembro do mar…
Ge: Puxa!
Jo: Você se lembra do mar quando olha pro céu?
Ge: não! (incomodado)
Jo: nao entendo porque as pessoas nao se lembram do mar quando olham pro
céu! Um é o espelho do outro…
Ge: você acha?
Jo: Você nao acha?
Ge: Não…
Jo: Talvez você devesse olhar mais pro céu…
Ge: E talvez você devesse olhar mais pro mar…
Jo: Quer dizer pro céu…?
Ge: não,, quero dizer.. ! tanto faz…
Jo: tanto faz não! Se lembro do mar quando olho pro céu, você achando que eu
deveria lembrar mais do mar, deveria ter falado pra eu olhar mais pro céu….
Je: eu nao disse que você deveria “lembrar” mais do mar, e sim “ver” mais o mar,
mas esse conversa nao faz o menor sentido…
Jo: faz todo o sentido! Ou você nao ve as coisas quando se lembra delas?… as
pessoas nao se lembram mais de nada porque nao vem nada quando querem se
lembrar… por isso o esquecimento….!
Je: eu nao preciso dos olhos para ver alguma coisa que quero lembrar…
Jo: mas quem disse que só é possível se enxergar com os olhos?
Je: eu nao estou dizendo isso, pelo contrário…
Jo: mas você acabou de dizer!
Je: nao eu nao disse isso, mas de qualquer forma, se o senhor nao se incomodar,
nao estou conseguindo me concentrar no que estou fazendo….(apontando para a
revista)
Jo: Talvez se você parasse de se distrair com essas palavras cruzadas iria
conseguir se concentrar no que esta fazendo…
Jorge ri irritadamente
Je: Olha, eu nao sei se o senhor percebeu, mas eu estou me referindo justamente
as palavras cruzadas…
Jo: eu também!
Je: Cristo!!
Jo: a propósito, eu nem perguntei se você quer conversar… vi que estava fazendo
umas palavras cruzadas…nao queria atrapalhar sua concentração!!
Je: Não diga!
Jo: é verdade, !! eu estou atrapalhando?
Je: Nao imagina, impressão sua!
Jo: Que ótimo, assim me sinto mais a vontade para conversarmos então….
Je: Jura…!
Jo: Voce nao parece estar muito entusiasmado com isso!! Você nao gosta de
conversar?
Je: Naturalmente que gosto de conversar…
Jo: Jura? Talvez seja só um problema de concentração então… depois de uma
certa idade vai ficando mais difícil mesmo….
Je: olha, eu nao tenho nenhum problema em me concentrar naquilo que quero
fazer… e também nao tenho uma certa idade!
Jo: Tem problema em querer fazer o que esta fazendo na sua idade?
Je (desconcertado): Absolutamente…
Jo: Vamos, nao precisa ter vergonha… a maior parte das pessoas sofrem disso…
depois da angustia é o mal do século… se bem que não querer fazer o que se faz
deve dar um certa angustia a longo prazo…. principalmente com a idade!
Je: eu sempre faço o que quero
Jo: sério, engraçado, achei que nesse momento nao queria conversar e sim estar
fazendo palavras cruzadas… que bom que me enganei… sinal que podemos
aprofundar nossa conversa!
Je: inacreditável!
Jo: pode acreditar… a vida nao seria possível sem algum tipo de crença!
Je: Voce acha mesmo?
Jo: tenho certeza… nem que seja para acreditar so em você e mais nada! Você nao
acredita em você mesmo?
Je: É logico que acredito, mas que pergunta!
Jo: então por que duvida? Duvida e certeza sao sentimentos diferentes…. uma te
leva a um estado onde as coisas realmente existem de verdade, a outra, onde elas
existem sem querer….
Je: Sem querer?
Jo: sim, voltamos a vontade… talvez a vontade de querer que as coisas existam de
fato seja maior do que a dificultade de se concentrar para fazer com que elas
existam, portanto elas passam a existir…
Je: Genio!
Jo: existir de verdade! Hahaha, tanto numa como na outra elas existem de
qualquer forma, o que muda é sua relação de perceber a existência das coisas…
muitas vezes muitas coisas estão existindo bem ao nosso lado, e nao é porque
nao vemos que elas deixam de estar lá….
Je: trancendente ….
Jo: o problema é quando percebemos tarde demais….
Je: você ve um problema nisso?
Jo: você nao ve? Problemas de concentração e percepção muitas vezes andam
juntos…
Je: olha senhor….
Jo: Jonas, o nome é Jonas….
Je: Jonas
Jo: Jonas…. como aquele da baleia…
Je: Eu sei…
Jo: Sabe? Voce ja foi engolido por uma baleia?
Je: Nao, nunca, e o senhor?
Jo: Também não, mas uma vez fui atingido por uma agua viva…! e uma outra por
um baiacu…!! nao sei o que é pior, um peixe inchando do nosso lado ou uma agua
beliscando a gente…. nossa, foi horrível, eu sai correndo do mar, nunca me
esqueço daquele dia,, o céu estava azul, quase verde, o sol era uma bola de fogo
amarela, queimava a pele sabe… o sal, o sal estava bem salgado, acho horrível o
gosto de sal na agua do mar, sempre me perguntei porque nao colocaram
açúcar…. seria muito mais doce dar um mergulho!, mais poético sabe?, talvez com
tanta gente precisando emagrecer as praias iriam ficar desertas, de fato nao ia
ser uma boa para economia, nem pros diabéticos, é verdade, com tanto
moralismo, iam acabar processando o dono do mar… as coisas sao como
deveriam ser, as vezes queremos ficar mudando tudo e nao vemos que as coisas
que tem que ser mudadas mudam mesmo quando nao queremos, e as outras
coisas, bem, as outras coisas que nao mudam nao sao passiveis de serem
mudadas, senão alguém com certeza ja teria mudado, ninguém consegue viver
sem mudar, é quase um tique da humanidade essa necessidade de mudança…
imagina você querer mudar a cor do ceu por exemplo, precisaria ser louco para
passar uma vida querendo mudar o impossível, ou melhor, o imutável, ja que
tudo que o impossível de ontem é o possível de hoje, nao é mesmo? Se é muito
mais impossivelmente possível pintar o jardim pra que querer mudar a cor do
céu?… nao é verdade? Pra que mudar o céu se podemos mudar a terra? Nao
precisa querer mudar a grama do mundo todo, mas o seu pedacinho, qual o
problema de ter um gramadinho rosa por exemplo?…. falam que sempre a grama
do vizinho que é mais verde… temos que acabar com esse pensamento, ! pronto,
nesse caso o vizinho vai olhar pra sua grama rosa e nao vai pensar que a sua
grama é mais verde que a dele…. resolvido esse problema no mundo…. se bem
que nao sei se depois que você pintar a grama ela vai conseguir viver muito
tempo, porque essa coisa de ser verde vem de dentro dela ne, e essas
maquiagens devem ter muitas toxinas, nao é mesmo? difícil mudar a essência de
uma coisa, essa coisa que vem de dentro do ser nao acha?
Je: Acho que a minha opinião nao vai mudar muita coisa.
Jo: Tai uma coisa que você precisa mudar! Se você ja nao acha que a sua opniao
vai fazer alguma diferença quem vai achar? Melhor nao ter uma opniao do que
ter uma e nao acreditar nela…
Je: Voce sempre é assim?
Jo: eu sempre sou assim como sou, você nao é? Ta aí outra coisa que tem que
tentar mudar…. você nao ser o que é também é um problema grave hoje em dia…
hum, recapitulando: concentração, percepção, e agora essência… você toma
algum anti depressivo?
Je (sendo irônico): Eu nao tomo antidepressivo porque eles nao funcionam nas
situações realmente deprimentes da vida!
Jo: Talvez tenha que tomar um mais forte então! Se quiser te indico um outro
psiquiatra…o seu nao esta funcioando!
Je: eu nao vou ao psiquiatra …
Jo: sabe que faltar nas sessões é um dos primeiros sintomas de uma iminente
recaída… você deveria fazer um esforço…., ou pelo menos perceber o que esta
acontecendo,, tenta se concentrar, quem sabe assim você consegue mudar as
coisas….
Je: eu nao quero mudar nada!
Jo: é verdade, tinha me esquecido do problema de vontade também… primeiro
então vai ter que começar a querer… pra depois mudar, sem querer nao vai dar!!!
Je: eu vou voltar as minhas palavras cruzadas senhor Jonas, se nao me levar a
mal….
Jo: Querer é poder!
Je: é verdade, e como eu quero muito fazer palavras cruzadas nessa vida, receio
que vamos ter que encerrar essa conversação….
Jo: tudo bem, mas eu acho que um proposito mais elevado iria te ajudar mais a
mudar as coisas… sabe, a vida é muito curta para ficarmos num banco ou numa
poltrona, ou numa hidromassagem fazendo palavras cruzadas… e muito mais rica
também… deve ter algo que te interesse mais….
Je: nesse momento nao tem!
Jo: Sinto muito em ouvir isso, Jorge, de verdade! Talvez eu possa te ajudar…. eu
adoro palavras cruzadas…. costumava ser muito bom com as palavras…cruzadas!!
Je: Certas coisas fazemos melhor sozinhos senhor Jonas!
Jo: Viver por exemplo!
Je: nao vivemos sozinhos, vivemos em comunidade, com milhões de pessoas!
Jo: você pode viver com um milhão de pessoas, mais ai seu caso seria mais
grave… se bem que existem varias modalidades de esquizofrenia, talvez a sua nao
seja a mais problemática!
Je: Agora eu que sou o esquizofrênico?
Jo: eu nao vivo com um milhão de pessoas dentro de mim…
Je: sorte delas…
Jo: o que disse?
Je: nada, pensei alto, só isso
Jo: Quem?
Je: como quem?
Jo: quem pensou, você?
Je: eu, logico, quem mais seria?
Jo: nao sei, alguma das outras novecentos e noventa e nove mil pessoas que você
se referiu….
Je: É verdade, como fui me esquecer!
Jo: Talvez porque você nao veja as coisas quando se lembra delas, por isso o
esquecimento,,,
Je: A gente ja falou disso…
Jo: falamos sim, viu como você se lembra!
Je: Como esquecer?
Jo: se tornando inesquecível? Impossível… certas coisa nao esquecemos nunca,
mesmo quando nao nos lembramos mais delas…
Je: que coisas?
Jo: Segredo, nao vou te contar!
Je (ironico): Agora vou ficar curioso, quero saber!
Jo: Talvez você saiba, apenas nao se lembra!
Je: É mesmo? E o que seria tao inesquecivelmente esquecível assim para eu nao
estar me lembrando agora?
Jo: isso só você pode me dizer…!!
Je: o azul verde do céu?
Jo: taí uma coisa que nao nos esquecemos nunca, mesmo quando nao
lembramos… a cor do céu… a inesquecível cor do céu , ela estará para sempre em
nós, nos nossos sonhos, nos nossos instantes, mesmo que o céu mude de cor, ela
estará para sempre lá… mesmo que o céu o fique mais vermelho que o sangue, o
seu azul estará para sempre grudado em nossas almas.. mesmo que ele nunca
mais seja azul, ela estará lá como um idílio de nostalgia perdido no tempo dentro
de nós….mas estará lá…!!
Je: Voce podia ser poeta!
Jo: Eu sei!
Je: você sabe?
Jo: sei sim, eu podia ser qualquer coisa que eu quisesse… e você? Você podia ser o
que?
Je: Eu me basto sendo o que sou, nao penso no que podia ser, prefiro ser e ponto!
Jo: mas para ser nao precisa se tornar? Ou você sempre foi?
Je: nos tornamos sendo, uma coisa nao se separa da outra!
Jo: então você sempre foi e sempre vai ser o que esta sendo…. eu tinha imaginado
isso de você….
Je: imaginado o que?
Jo: essa sua constância cega, de sempre ser aquilo que já foi…
Je: constância cega?
Jo: sim, é o que acontece quando temos problema de percepção e essência! As
pessoas as vezes quando nao percebem direito acabam sendo o resultado das
consequências das percepções erroneas que tiveram, ou seriam as
consequências dos resultados? Você ja parou para pensar nisso? De qualquer
forma, o essencial acaba nao sendo muito…
Je (levemente interessado): O essencial? Mas ser o essencial nao seria
justamente, apesar dos efeitos das percepções, o sucesso em driblar o superficial
em pró daquilo que se é, independentemente das consequências?
Jo: perfeito, mas para driblar qualquer coisa pressupõem-se maleabilidade
inerente a essência… o etéreo…! sermos inabalavelmente rígidos e firmemente
convictos muitas vezes não passa de orgulho, ou até mesmo burrice… ou ainda
mais, preguiça…
Je (sarcasticamente provocativo) é mesmo? Então como diferenciar a coerência
da estupidez?
Jo: comece por nao tendo problemas de percepção… vai ficar mais fácil, e se eu
fosse você eu nao faltaria mais nas sessões!
Je: ótima dica, vou procura me lembrar disso…
Jo: procure sim, tenta nao esquecer!!
Jorge retorna brevemente para suas palavras cruzadas, tentando ignorar a
inegável presença de Jonas.
Jo: E como vao as meninas?
Je: Como você sabe que eu tenho duas filhas?
Jo: Eu sei? Voce acabou de dizer!
Je (nitidamente incomodado) : Eu nao disse, você que perguntou sobre elas!
Jo: Eu perguntei? É verdade, perguntei…. mas só estava querendo puxar assunto…
você ficou quieto de repente !
Je: Mas como sabia?
Jo: Sabia do que ?
Je (flagrantemente nervoso): Das minhas filhas, como você sabia das minhas
filhas, pare de se fazer de idiota?
Jo: Eu nem sabia que sabia…. você usa aliança, ou seja, é casado, ou nao é?
Je: Sou.
Jo: Então.
Je: Entao o que? Até ai, podia nao ter filhos, ou ter filhos homens…
Jo: Nao, nao podia!
Je: Nao podia o que?
Jo: ter filhos homens…
Je: Claro que podia, quer dizer,, que poderia ter tido…
Jo: Mas nao teve, nao é mesmo?
Je: Nao, nao tive….
Jo: Esta vendo, viu como eu sabia!
Je: Nao, nao vi como você sabia, você ainda nao me disse…
Jo: Nao te disse o que?
Je: Como sabia
Jo: Oras, o que você quer que eu te diga?
Je: Como sabia que sabia!
Jo: Eu nao sabia que sabia, simplesmente sabia! Nao sei o que quer que eu diga…
Je: eu quero que diga como sabia que eu tinha filhas….
Jo: Voce mesmo disse que nao pode ter filhos, quem nao pode ter filhos, tem que
ter filhas….
Je: eu nao tinha te dito nada sobre filhos…
Jo: E nem sobre filhas….
Je: Justamente…
Jo: Jorge, fica calmo, nao precisa ter vergonha porque nao pode ter filhos, eu sei
que é o sonho de todo homem, mas as vezes temos que nos contentar com uma
filha,, você ainda tem sorte de ter duas, nao é mesmo?
Je: Eu nao me arrependo de ter tido filhas!
Jo: eu nao disse nada de arrependimento, disse que nao precisava ter vergonha…
você fala em arrependimento como se pudesse ter escolhido… você nao escolheu
ter filhas, elas simplesmente vieram, nao é mesmo? Ou você escolheu ter filhas?
Je (seco): nao, nao escolhi!
Jo: então quer dizer que se arrepende?
Je: nao , olha aqui, eu nao me arrependo de ter tido filhas, nem muito menos
sinto vergonha, eu sou um pai exemplar e minha filhas me amam….
Jo: você fala com tanta convicção que parece ate mesmo duvidar de si próprio!
Je: eu nao duvido!
Jo: então porque esta nervoso?
Je: nao estou nervoso…
Jo: esta sim, ou no mínimo alterado, você esta suando!
Je: você ainda nao me disse como sabia!
Jo: sabia do que?
Je: das minhas filhas oras…
Jo: Ora Jorge, você ainda esta preocupado com isso?
Je: logico, você nao estaria se um estranho abordasse as suas filhas?
Jo: Nao sei, nao tenho filhas…!
Je: Pois eu tenho duas!
Jo: Eu tinha uma filha só, mas ela morreu.
Silencio
Je (recuando, desconcertado): Eu sinto muito.
Jo: eu também sinto, muito.
Je: olha, quer saber, acho que ja esta ficando tarde, é melhor eu ir voltando para
casa…
Jo: Já, esta cedo ainda, o céu ainda continua quase verde… ele ainda nao ficou
vermelho!! Sempre esperto essa hora do dia, quando ele começa enrubescer,
quando nos mostra que realmente mudou…. que depois da luz existe a passagem
para a escuridão… imagina como seria se o ceu nunca ficasse vermelho, que
chatice!
Je: é verdade, uma vida sem por do sol nao seria uma vida
Jo: todo sol tem que se por…. todo o dia tem que acabar… toda vida tem que
morrer…
Je: Olha, realmente foi um prazer conversar como você, mas eu preciso ir, minha
mulher deve estar voltando do trabalho agora, ela vai ficar preocupada se nao
me encontrar em casa…
Jo: você mora aqui perto?
Je: Sim, moro, a algumas quadras…
Jo: você, sua mulher, e suas filhas?
Je (uma agulhada): Sim, eu, minha mulher e minhas filhas!
Jo: Que inveja de você…
Je: inveja?
Jo: sim, inveja, esbanjando filhas assim…
Je: Eu nao esbanjo minhas filhas…
Jo: você as protege…
Je: como qualquer pai…
Jo: espero que continue conseguindo as proteger sempre…
Je: É logico que consigo… é o meu dever e o direito delas
Jo: falou como um jurista! Advogado?
Je: sim, trabalho com direito…
Jo: Penal?
Je: nao mais, Familia!, … você me parece ter um faro bom para as coisas!
Jo: nao tenho problema de percepção! (risos) você acredita na justiça?
Je: Se nao acreditasse nao teria porque estar trabalhando com ela
Jo: muitos homens trabalham justamente com o que não acreditam… o que seria
justiça pra você?
Je: seria a capacidade que a sociedade tem de equilibrar a si mesma, nem que
para isso ela tenha que dispor de meios arbitrários e incontestáveis.
Jo: e nao seriam esses meios injustos?
Je: se eles estiverem dentro da lei, nao
Jo: então a lei esta acima da justiça?
Je: a lei está a favor da justiça
Jo: como pode uma lei injusta estar a favor da justiça?
Je: as leis nao sao feitas para serem injustas…
Jo: mas você admite que pode haver injustiça nas leis…
Je: eventualmente pode haver algumas falhas que deverão ser suprimidas, afinal
quem cria as leis sao os homens, e os homens são…
Jo: injustos?
Je: falhos….
Jo: quer dizer então que até que alguém se de conta que uma falha foi cometida,
ou mesmo até que o cometedor da falha resolva admitir seu erro, partindo do
pressuposto que a falha nao foi intencional, ja que além de falhos os homens
também são espertos, vive-se na injustiça?
Je: se você quer colocar desse forma….
Jo: que outra forma pode ser colocada?
Je: que estamos sempre buscando aprimorar aquilo que está estabelecido,
mesmo porque as leis sao consequências de uma cultura especifica e dos seus
costumes e hábitos que também estão em constante transformação ao longo do
tempo!
Jo: então a justiça nao existe?
Je: Existe, é ela que move a engrenagem!
Jo: mas se você pensar que estamos na engrenagem, algo que a move estará fora,
no inalcançável, como se estivéssemos sempre girando sem notar aquilo que nos
gira… como aqueles ratinhos naquelas gaiolas, o que existe de verdade é a
limitação dos espaços físicos, nada mais!
Je: existe o esforço que faz com que eles girem a roda, e nesse caso, a força vem
de dentro…
Jo: mas o que nos gira é a própria estrutura da gaiola, sem ela poderíamos estar
andando em linha reta
Je: a estrada em que a reta se forma seria a gaiola vista por outro ângulo! O que
faz ser uma estrada ou uma gaiola é a maneira com que se move, não a
disposição geométrica ao redor!
Jo: então o que seria a justiça, a própria gaiola?
Je: O estimulo para a força que se move dentro da gaiola
Jo: você quer dizer o esforço de se mover sempre e nunca sair do mesmo lugar?
Je: eu nao disse isso!
Jo: você disse que estamos todos presos!
Je: também nao disse isso…
Jo: se estamos sempre buscando algo que nunca está lá, vivemos numa ilusão
onde a necessidade de achar que as coisas sao justas cria uma sensação de que
de fato elas sao, mas elas somente sao o que sao, justas ou injustas, independem
desse conceito para serem reais e nos afetar do jeito delas… viver em função do
abstrato sem sequer se dar conta disso, é isso que os homens fazem, e ainda se
matam por ideias insólitas…
Je: você esta filosofando muito! A justiça se dá na prática!
Jo: a justiça nao existe!
Je: quando colocamos um assassino na cadeia ela existe, e é bem concreta!
Jo: é mesmo? E quando tiramos um de lá, ela é o que?
Je: ausente!
Jo: você tem razão… a ausência de justiça… ela pode nos levar a loucura em
muitos casos… você acredita em pessoas que trabalham para promover essa
ausência?
Je: sempre existiu pessoas mal intencionadas, mas nem sempre uma injustiça é
cometida de proposito…
Jo: você quer dizer então que podemos cometer injustiças, basta não as termos
desejado de primeira mão?
Je: nao podemos cometa-las, mas também nao podemos ser sacrificados caso elas
aconteçam independentemente da nossa vontade…
Jo: mas dependentes da nossa ação!
Je: nao temos o controle de tudo que fazemos…
Jo: você fala como se tivesse perdido o controle em algum momento…. pelo visto
andou cometendo muitas injustiças , acho que todo o advogado é cheio delas!
Je: os advogados estão para servir e proteger os homens através da lei…
Jo: como os pais estão para proteger seus filhos?
Je: sim, como um pai para como seu filho
Jo: você acredita que todos sao iguais perante a lei?
Je: acredito
Jo: mesmo aqueles como foro privilegiado!
Je: eles estão amparados pela lei
Jo: e os assassinos?
Je: eles também tem direito de defesa!
Jo: então à lei é dada a permissão de criar diferenças entre os homens…
Je: tratamento igual para os iguais e desigual entre os desiguais, nao podemos
nivelar todos os homens pela mesma medida
Jo: e quem estabelece as medidas?
Je: a sociedade dos homens que lutam por ela
Jo: ou seria dos homens que controlam ela?
Je: seus pensamentos nao estão de acordo com a realidade de um estado
democrático de direito…
(risos)
Jo: estado democrático de direito? Você so pode estar querendo me fazer rir!
Je: em hipótese alguma, pelo contrario, isso tudo é muito sério!
Jo: um estado controlado por meia dúzia de sujeitos como você, onde os seus
interesses e os do seu grupo de amigos estarão sempre defendidos e garantidos
acima de todos os outros, com a desculpa perfeita de serem leis…
Je: a sociedade tem que ser representada por algum grupo que no mínimo pense,
e qualquer um estando apto está convidado a participar dele,,, mas é muito mais
fácil criticar do que fazer alguma coisa…
Jo: fazer o que meu amigo Jorge, quando vocês determinam o que é e o que não é
justo…. quando, como e onde se fazer justiça, o que nos resta senão se submeter?
Ou deveríamos fazer justiça com as próprias mãos? É isso que você esta
sugerindo…
Je: nao, a justiça é feita quando se aplica a lei
Jo: mas a lei é feita por homens , e somos homens, porque nao podemos fazer
justiça??
Je: por que não é a lei dos homens fazer justiça com as própria mãos
Jo: mas são as mãos que escrevem as leis
Je: Mas nao sao elas que executam os homens….
Jo: A nao? que parte do corpo fica o dedo que se puxa o gatilho Jorge?
Je: você esta exaltado, acho que nao vamos chegar a mediador comum
Jo: vamos chegar, vamos ter que chegar, nem que para isso tenhamos que puxar
o gatilho juntos….
Je: você esta delirando
Jo: nunca estive mais lucido….
Je: nao sei como chegamos a esse ponto, mas confesso que sempre tive um fervor
em defender aquilo que acredito…
Jo: vermelho, ele esta vindo…
Je: o que?
Jo: o céu,, ele esta ficando vermelho…
Je: sei…
Jo: você acredita em pena de morte?
Je: nao acredito, nao se paga uma vida com outra…
Jo: quem lhe disse isso? A bíblia?
Je: nao, os meus princípios…
Jo: pois eu vou te contar uma historia sobre os meus princípios. Era uma vez
numa terra distante, um homem chamado Jaco. Ele tinha sido jurado de morte
pelo seu irmão, porque este tinha ciúmes da bençao que seu pai tinha lhe
concedido por engano. Sim, por engano, porque quando Isaque abençoou Jaco,
ele pensava que estava abençoando seu filho mais velho, Esau. As pessoas
concentram toda atenção do fatricidio bíblico em cima de Caim, coitado, como se
ele tivesse sido o único dentre os homens que se tornou um assassino. Como se
nós mesmos não pudéssemos matar um irmão, ja que somos todos irmãos
perante Deus, e iguais perante a lei… Engraçado isso, mas voltando a Jacó, sua
mae, ao saber que o filho mais velho estava planejando a morte do caçula lhe
chamou de canto e lhe alertou, como qualquer mae faria, ainda mais Rebeca que
foi quem tinha armado para Jaco receber a bençao no lugar do irmao. Ela lhe
aconselhou a partir, a ir embora por uns tempos. Então ele foi para a terra de um
homem que tinha duas filhas, Leia e Raquel. A historia de amor começa aqui. Jaco
se apaixonou por Raquel, mas o costume daquele povo nao era entregar a caçula
antes da primogênita. Jaco serviu o pai de Raquel sete longos para se casar com
ela, e no dia que achou que teria conquistado seu amor, se viu casado com sua
irma, Leia. Que desgosto! Depois de mais longos sete anos ele enfim conseguiu se
casar com Raquel, e com muito sacrifício, um tempo depois se mudar dali com as
filhas desse homem que o explorou por vinte intermináveis anos. De Leia, entre
outros filhos nasceu Diná, uma menina linda e formosa, e virgem. Agora
chegamos na personagem protagonista dessa historia. A menina formosa e
virgem. Muito bem, muitas peregrinações e aventuras se passaram para Jaco
chegar em paz na cidade de Siquem, na terra de Canaa. Ali ele comprou a sua tao
sonhada casa no campo dos filhos de Hamor, pai de Siquem, o príncipe daquele
lugar e protagonista da nossa historia no papelo de galã irresistível sedutor! Um
belo dia Dina estava passeando formosamente pelo bosque, quando Siquem a
viu, e tomado de desejo incontrolável, se deitou com ela em plena luz do dia. Mas
ele tomou afeição pela garota, se enamorou perdidamente por ela e pediu o
consentimento de Jaco para poderem se casar. Ele a amava. O pai de Siquem,
Hamor, anfitrião da terra, conversou com Jaco, e pediu para arranjarem o
casamento. Lhe garantiu que habitariam juntos as terras, lhe ofereceu
propriedades e participação dos negócios como irmãos. Eles seriam felizes para
sempre. As duas famílias com crenças e valores diferentes, seriam felizes para
sempre, como se fossem uma só. O casamento estava para ser marcado, mas os
filhos de Jaco impuseram uma única condição. Disseram que nao podiam casar
sua irmã com Siquem, porque ele nao era circuncisado. Eles disseram que
habitariam sua terra sim, e juntos se tornariam um só povo sim, mas que antes
todos os varões que habitavam na cidade de Siquem deveriam consentir a
circuncisão. E dito feito. Cada um dos homens daquele povo consentiram com o
ato. Todos eles foram circuncisados. Todos eles passaram a ser algo diferente do
que até então haviam sido na promessa de uma união duradoura e feliz. O céu
nunca tinha sido tão azul. Mas o mar, o mar nunca antes tinha estado tão
vermelho. No terceiro dia, quando os homens da cidade de Siquem ainda
estavam em processo pós operatório, com as dores especificas de uma
circuncisão, de uma violação da carne fálica, os irmãos de Dina pegaram suas
espadas, entraram na cidade e mataram todos os homens que estavam ali. Todos.
Friamente, um a um. Mataram também o noivo de sua irma, e seu respectivo pai,
o anfitrião daquele lugar. Exterminaram sua descendência, e foram embora com
a irmãzinha violada, como se nunca estivessem passado por ali.
Durante a narrativa, que se deu de forma flagrantemente passional, Jorge vai
ficando visivelmente alterado, assustado com o subtexto das falas, enquanto que
Jonas vai se tornando sadicamente frio, quase como se estivesse sido hipnotizado
por uma força maior.
Silencio
Je (em tom revelador): o meu nome… eu nao te disse o meu nome!
Jo: os irmãos de Dina, Jorge, eles vingaram a vergonha de sua carne…
Je: como você sabia o meu nome?
Jo: eles vingaram ela, a inocência dela… eles vingaram…
Je: Eu nao te disse o meu nome…
Jo: (perturbado) só se é pura uma vez, e depois nunca mais… só se é criança uma
vez… só se é menina uma vez…
Je: as minhas filhas, como você sabia das meninas?
Jo: uma única vez Jorge… tão frágil, tão delicada que a qualquer momento pode se
romper,,, como uma nuvem no céu Jorge… tao frágil como uma nuvem…
Je: me responde… como você sabia?
Jo: e depois que essa nuvem desaparece, nunca mais se formará outra igual…
Je: me responde
Jo: nunca mais….
Je: fala!
Jo: nem que o céu deixe de ser azul…
Je: (explodindo) seu canalha!!
Como um gato que ataca, de súbito Jonas se atira sobre o pescoço de Jorge, que se
precipita do banco e cai no chão! Jonas por uns instantes aperta o pescoço de
Jorge até quase sufoca-lo. Enquanto o sufoca ele exaspera a fala:
Jo: Ou vermelho….vermelho Jorge, vermelho….
Depois volta ao banco, onde calmamente senta, deixando o outro ainda pasmo,
estirando no chão.
Je: (balbuciando) quem é você santo Deus… quem é você?
Jo: Sabe Jorge, a minha menininha também encontrou um Siquem no meio do
caminho, mas ela não tinha irmãos para defender sua inocência. Só tinha um
pai… era tudo que ela tinha na vida. Um pai. E sabe qual é a pior Jorge?
Jorge em silencio. Jonas alucinando
Jo (gritando): Sabe?
Je: Não, nao sei!
Jo: É que ela ainda nao tinha completado 10 anos. Dez anos de idade Jorge.
Je (como que ligando os fatos) : Meu deus… deus do céu…
Jo: (emocionado, quase em transe) Dez anos Jorge. Dez anos! Sabe o que
aconteceu com ela Jorge? Sabe…? Pois eu vou lhe contar o que aconteceu com
ela… Era um sábado de manha, o dia estava lindo, o céu estava quase tao azul
quanto o de hoje.. quase tao perfeito… Ela tinha uma professora que gostava
muito, sempre falava dela em casa, sempre… acho que é porque nao tinha mae,
devia ser isso, minha mulher morreu com um câncer no fígado quando ela tinha
5 anos… Coitada, nao conseguiu parar de beber até o ultimo minuto de vida…
uma vez atirou uma garrafa em mim porque nao queria deixar ela sair pra
encher a cara…. Esta vendo essa cicatriz aqui? (mostra o lado direito da testa)
Isso aqui foi o vidro da garrafa que rasgou minha pele Jorge…
Je: eu sinto muito pelo o que lhe aconteceu…
Jo: Ela estava tao feliz esse dia… essa professora foi com elas num maldito
museu… elas iam passear, aprender história…Ela e as amiguinhas…e a senhora
Ruth… ela nunca se perdoou… O filho da mae pegou ela no passeio da
escolinha…Aquele bastardo… ele levou ela pro banheiro… pro banheiro daquele
maldito museu… sabe o que ele fez com ela no banheiro Jorge?
Je: Isso ja faz muitos anos, você tem que arrumar um jeito de esquecer isso…
Jo: o grito, ninguém ouviu o grito!!!
Je: deixe isso, isso vai acabar com você…
Jo: independência ou morte Jorge!
Je: Quanta dor…
Jo: Ninguem ouviu ela gritar…
Je: santo deus…
Jo: ele,
Je: Cristo!
Jo: Rasgou ela em dois Jorge… a minha menininha! Rasgou ela em dois… Aquele
miserável…
Je: eu me resignei Jonas, eu deixei meu escritório, meus sócios, minha paixão…
Jo: Em dois Jorge, ele tinha um metro e noventa… aquele monstro…
Je: Eu nao tive outra opção…
Jo: despedaçando a minha pequena flor….
Je: eu nao poderia prever… nao poderia….
Jo: a minha menininha…
Je (com dor): ele tinha direito a ser defendido, todos nós temos esse direito…
Jo: uma nuvem que morreu no céu antes de nascer…
Je: como eu poderia saber? Como, me diz?
Jo: nunca mais Jorge…
Je: você tem que se perdoar…
Jo: nunca mais…
Je: eu deixei de ser um penalista…
Jo (furioso) : você colocou ele na rua Jorge, você livrou a cara dele, você e seu
direito e seu senso de justiça… seu bandido, vocês colocam bandidos na rua…
Je: ele tinha direito a um advogado, todos nós temos… nao podemos prever o
futuro, nunca pensei que ele iria reincidir…
Jo: você sabia?
Je (com culpa): sabia o que?
Jo: que ele era culpado…
Je: eu… eu nao sabia, nao tinham provas concretas…eu me apeguei aos fatos…
Jo: você sabia, seu desgraçado, você sabia e mesmo assim defendeu ele…
Je: nós trabalhamos com os fatos, eu nao sabia….
Jo: voce falou reincidência, nao é possível reicindir num crime que nao foi
cometido antes…
Je: ele nunca tinha confessado o crime…
Jo: nao precisava confessar, estava nos olhos dele, voce via muito bem o inferno
dentro dos olhos dele e mesmo assim colocou ele na rua! voce e sua carreira
brilhante, e sua publicidade, e sua vaidade em vencer as causas impossíveis seu
desgraçado, voce devolveu um monstro pras ruas e o que ganhou em troca além
de umas paginas nos jornais?
Je: eu…
Jo: o que? Anda seu covarde…. o que?
Je: voce está fora de si…
Jo: o sangue da minha menininha,, é isso que voce ganhou…
Je: eu nunca poderia imaginar…
Jo: imaginar o que, que um bandido ia continuar a ser bandido… quanta
inocência nao é mesmo Jorge… vivemos num mundo tão puro, onde os bandidos
voltam para perto de nós, e dormem conosco todos os dias, e vivem conosco,
como se fossem íntegros, como se tivessem matado sem querer, roubado sem
querer, estuprado sem querer… e porque, porque ja nao conseguimos mais
distinguir os bandidos dos inocentes, é esse o mundo que vivemos.. eles estão
todos pintados com a mesma humanidade, com a mesma maquiagem dos
malditos direitos humanos graças a homens como voce, fascistas esquerdistas
filhos da puta….
Je: voce esta sofrendo a dor de um pai, uma dor que nao é logica. É natural que
veja as coisas assim, mas todos os homens tem o mesmo direito perante a lei,
todos os homens tem o direito de serem defendidos, de serem sentenciados, e de
pagarem por aquilo que fizeram…
Jo: eu paguei por aquilo que fiz, oito longos anos, eu paguei sendo um homem…
e quando um homen deixa de ser um homem e passa a ser um animal? Uma besta
selvagem Jorge, como ele poderá ser julgado como um homem? Como?
Je: voce nao tinha o direito de fazer o que fez… ele iria ser condenado pela
justiça…
Jo: direito, voce me fala em direito, pois eu vou te dizer o que é direito ou nao é
direito… imagina se um estranho cheio de desejos pervertidos pegasse a sua
filinha Jorge, a sua linda filinha quando ela estivesse distraída voltando da
escolinha pra casa…, pegasse ela e levasse ela pra dar uma volta no parque, em
Jorge, uma voltinha… voce nao ia descarregar uma arma no peito dele mesmo
dentro de um tribunal se tivesse a chance Jorge, nao iria?
Je (transtornado): seu filho da mãe, o que voce esta insinuando?
Jo: ou voce iria deixar ele viver para sair da cadeia Jorge… voce e sua justiça?
Je: As minhas filhas… como voce sabia das minhas filhas?
Jo: o céu Jorge.. o céu, ele nos fala muita coisa sobre um tempo que nao volta mais
Je: voce esta divagando, seu lunático, eu quero saber das minhas filhas…
Jo: as nuvens que morrem Jorge, elas nao voltam mais…
Je: as minhas filhas, seu canalha, me responde…
Jo: eles nao voltam mais… tao brancas, tao inocentes.. quando se desmancham,
nao voltam mais…
Je: Me responde! Eu exijo que fale….
Jo: nunca mais…
Je (como se estivesse vendo uma cena de terror diante dos seus olhos): voce esta
louco, seu doente!…
Jo: A sua menininha Jorge, tao linda, tao meiga e delicada, com aquelas
meiazinhas azuis de céu…
Je (ele parte pra cima dele): Seu canalha, voce esta brincando, voce esta
brincando….
Jo: uma pele tao macia, deve ter quase a idade da minha pequena…
Je (furioso, com agressividade, pressionando-o sobre o chão) : É mentira,
mentira…
Jo: elas poderiam ter sido irmãs…
Je: seu desgraçado…meu deus do céu, eu acabo com voce, acabo com voce..
Jo: os olhinhos verdes, quase tao verdes quanto o verde azul do céu…
Je ( chacoalhando Jonas) : seu insano, doente mental, me diz que é mentira, diz…
Jo: no meu bolso, você vai encontrar toda a verdade… as verdades mais
verdadeiras cabem no nosso bolso Jorge… nao precisamos de malas pra carrega-
las…
Je: a minha filha…. onde esta a minha filha?
Jo: a sua filha esta tão no meu bolso, quanto a minha está embaixo da terra…
Je: voce nao está falando coisa com coisa,
Jo: no meu bolso Jorge, eu carrego a justiça no bolso…
Jonas tira uma tornozeleira do bolso, com uma medalhinha. Jorge quando
percebe se tratar de um pertence de sua filha, entra em um profundo desespero.
Escuta-se um grito de dor profunda. Lagrimas e revolta.
Je: nao, naaaao, nao ! nao pode fazer isso comigo meu Deus, nao pode fazer…
Jo: a justiça dos homens é cega, cega Jorge, nao enxerga nada do que faz…
Em estado de transe, Jorge crava sua caneta no pescoço de Jonas. Que sucumbe e
ri ao mesmo tempo. Conforme Jonas ri, Jorge da mais cinco golpes em Jonas, até
olhar o que fez e largar a caneta no chão.
Jo (moribundo): a medalhinha Jorge, eu vim lhe devolver a medalhinha… ela
deixou cair no caminho, deixou no caminho. O céu nunca se pareceu tanto
quanto o mar … sem ilusões que se desmancham com o vento… sem nenhuma
nuvem branca para nos fazer chorar…
Je: Deus…. o que que eu fiz?
Jo: nao esqueça de se lembrar Jorge… de esquecer…
Jonas morre.
Jorge tira um celular do bolso. Disca um numero. Espera.
Je: Alô, Regina, as meninas, as meninas estão ai com voce? Estao? Nao, nao, por
nada, foi só um pressentimento. Eu ja estou voltando pra casa.
Jorge desliga o telefone. Olha para Jonas. Sai do palco em silencio.
FIM
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